DESTAQUES

domingo, 3 de setembro de 2017

Textos para Multi (05/09) Matutino



Aquarela do Brasil   (João Gilberto)

Brasil!
Meu Brasil Brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor...

Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Canta de novo o trovador
A merencória à luz da lua
Toda canção do seu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado...

Esse coqueiro que dá coco
Oi! Onde amarro minha rede
Nas noites claras de luar
Por essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
Onde  a lua vem brincar
Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro...

Brasil!
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiferente
Brasil, samba que dá
Para o mundo se admirar
O Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor...

Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Canta de novo o trovador
A merencória à luz da lua
Toda canção do seu amor
Huuum!
Essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado...

Esse coqueiro que dá coco
Onde amarro minha rede
Nas noites claras de luar
Por essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
Onde a lua vem brincar
Huuum!
Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro...

Brasil!
Meu Brasil Brasileiro
Mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor...

Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Canta de novo o trovador
A merencória à luz da lua
Toda canção do seu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado...

Esse coqueiro que dá coco
Onde amarro minha rede
Nas noites claras de luar
Por essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
Onde a lua vem brincar
Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro...

Oi! Essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
Onde a lua vem brincar
Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil!

Fonte: https:/www.letras.mus/br.joao-gilberto
Compositor: Ary Barroso
 

Brasil produz mais petróleo que Venezuela e México

Com a queda de produção de petróleo na Venezuela e no México, o Brasil se tornou o maior produtor de petróleo da América Latina. Desde o ano passado, a produção nacional tem superado a dos principais países exportadores de petróleo da região. Essa tendência deve se reforçar neste ano.
Segundo a edição de 2017 do ‘’BP Statistical Review of World Energy”, lançada na semana passada, o Brasil superou a produção da Venezuela e do México em 2016. Enquanto o Brasil registrou mpedia diária de 2,6 milhões de barris/dia, a Venezuela encerrou o ano em 2,41 milhões, e o México em 2,45 milhões. Em 2015 a produção venezuelana era de 2,64 milhões de barris/dia e ainda superava a do México ( 2,58 milhões) e do Brasil ( 2,52 milhões).
Essa troca de posições ocorreu tanto pelo da produção brasileiro quanto principalmente pela queda de produção venezuelana e mexicana. E a tendência é o Brasil continuar liderando o ranking regional neste ano.
Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o Brasil produziu 2,53 milhões de barris/dia em média em abril. Já a produção da Venezuela caiu para 2,19 milhões de barris/dia, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com base em dados do governo. A produção do México ficou em 2,012 milhões de barris/dia, segundo a estatal Petróleos Mexicanos (Pemex).
Os dados sobre a produção na Venezuela são controversos. O Ministério de Petróleo e Mineração não divulga estatísticas oficiais desde 2014. O relatório da Opep cita fontes secundárias que estimam uma produção venezuelana ainda menor, de 1,97 milhão de barris/dia em abril. Já a consutoria Oxford Economics estima que a produção neste ano deve ficar em 2,1 milhões de barris/dia.
“A perda da liderança da Venezuela em termos de produção é algo novo. O país sempre foi o principal produtor e exportador de petróleo na América Latina”, diz Francisco Rodrígues, economista-chefe da consultoria Torino Capital. Ele observa que, apesar de ter as maiores reservas do mundo ( estimadas em 300,9 bilhões de barris), o país produz muito abaixo da Arábia Saudita, dona das segundas maiores reservas (266,5 bilhões de barris) e que em 2016 teve produção de 12,3 milhões de barris/dia. Dentre as razões por trás da queda de produção venezuelana ele aponta a falta de investimentos e a nacionalização de empressas de serviço petroleiro, o que impediu a estatal Petróleo de Venezuela (PDVSA) de manter o nível de produtividade – em 2006, por exemplo, a média foi de 3,3 milhões de barris/dia. “Enquanto empresas que operam com a PDVSA têm dificuldades para importar insumos e problemas logísticos, a própria PDVSA tem de decidir entre utilizar os recursos para bens de capital ou para pagar a sua dívida externa.’’
A produção no México vive um problema semelhante de falta de investimentos. Ao lembrar que a produção mexicana há 12 anos era de 3,5 milhões de barris/dia, Severo López-Mestre Arana, da consultoria Galo Energy, afirma que o México demorou para abrir o setor petrolífero para investidores estrangeiros e para perceber que a Pemex não podia dar conta da nova produção em águas profundas.
Moises Kababie, da consultoria Control Risks, diz que a Pemex depende de um número limitado de campois maduros, como o de Cantarell. “A produção da Pemex dependia em mais de 60% desse campo, que está se esgotando. Parelelamente, houve queda dos preços da commodity, limitando os recursos da estatal para explorar, produzir e investir.” Ele avalia que a produção mexicana deve fechar o ano em 1,94 milhão de barris/dia.
Segundo o diretor-geral da ANP, Décio Oddone, enquanto “a fakta de investimentos em exploração no México e na Venezuela explica a queda de produção, no Brasil os grandes projetos seguram e aumentam a produção.”
A produção no Brasil cresce desde 2013 devido aos campos do pré-sal. “A área do pré-sal é a única parte da Petrobrás que continua a se expandir, apesar da crise da empresa”, diz Ricardo de Azevedo, especialista em produção petroleira da USP. Para ele, o pré-sal seguirá nesse nível, ou até crescerá. (Colaborou Cláudia Scüffner, do Rio)

Descrição: C:\Users\Pedro Henrique\Desktop\arte21int-101-petro-a13.jpg

Texto para Multi (05/09) Vespertino



Aquarela do Brasil   (João Gilberto)
Brasil!
Meu Brasil Brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor...

Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Canta de novo o trovador
A merencória à luz da lua
Toda canção do seu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado...

Esse coqueiro que dá coco
Oi! Onde amarro minha rede
Nas noites claras de luar
Por essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
Onde  a lua vem brincar
Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro...

Brasil!
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiferente
Brasil, samba que dá
Para o mundo se admirar
O Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor...

Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Canta de novo o trovador
A merencória à luz da lua
Toda canção do seu amor
Huuum!
Essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado...

Esse coqueiro que dá coco
Onde amarro minha rede
Nas noites claras de luar
Por essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
Onde a lua vem brincar
Huuum!
Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro...

Brasil!
Meu Brasil Brasileiro
Mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor...

Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Canta de novo o trovador
A merencória à luz da lua
Toda canção do seu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado...

Esse coqueiro que dá coco
Onde amarro minha rede
Nas noites claras de luar
Por essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
Onde a lua vem brincar
Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro...

Oi! Essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
Onde a lua vem brincar
Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil!

Fonte: https:/www.letras.mus/br.joao-gilberto
Compositor: Ary Barroso

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Professora Virgínia (Português) - CONTO: A DONA DA PENSÃO

CENTRO DE ENSINO FUNDAMENTAL 17 DE TAGUATINGA

CONTO: A DONA DA PENSÃO

Billy viera de Londres no vagaroso trem vespertino, com conexão em Swindon, e quando finalmente chegou a Bath já eram cerca de nove da noite, e a lua se erguia no céu límpido e estrelado sobre as casas em frente à entrada da estação. Fazia um frio de matar, e o vento cortava seu rosto como uma lâmina de gelo.
“Perdão”, disse, “mas há algum hotel bem barato não muito longe daqui?”
“Tente o Bell and Dragon”, respondeu o porteiro, indicando a rua em frente. “Pode ser que o aceitem lá. Fica a cerca de quatrocentos metros, seguindo por aquele lado.”
Billy agradeceu, apanhou a valise e pôs-se a caminhar os quatrocentos metros até o Bell and Dragon. Nunca estivera em Bath. Não conhecia ninguém que morasse ali. Mas o sr. Greenslade do Escritório Central em Londres dissera-lhe que era uma cidade esplêndida. “Procure um lugar para ficar”, dissera, “e depois apresente-se ao gerente local assim que estiver instalado.” [...]
Não havia lojas na larga rua por onde caminhava, ladeada apenas por duas fileiras de casas altas, todas idênticas. Elas tinham alpendres, colunas e escadas de quatro ou cinco degraus que levavam até a porta de entrada, e era óbvio que, em algum tempo distante, haviam sido residências muito elegantes. Mas agora, mesmo no escuro, ele podia ver que a pintura dos batentes das portas e das janelas estava descansando e que o desleixo trouxera rachaduras e manchas às vistosas fachadas brancas.
De repente, na janela de um andar térreo iluminada intensamente pela luz de um poste a cerca de cinco metros, Billy avistou um cartaz apoiado contra o vidro de um dos painéis superiores da janela. HOSPEDARIA, dizia. Havia um vaso de flores de salgueiro, alto e elegante, bem abaixo do cartaz.
Billy parou de caminhar. Aproximou-se um pouco mais. Cortinas verdes (algum tipo de tecido aveludado) emolduravam os dois lados da janela. Os salgueiros ficavam lindos ao lado delas. Ele avançou, espiou a sala através da janela e a primeira coisa que viu foi um fogo intenso ardendo na lareira. No tapete em frente ao fogo, dormia um pequeno dachshund enrolado em si mesmo, o focinho enfiado sob a barriga. A sala em si, pelo menos até onde a penumbra lhe permitia ver, era agradavelmente mobiliada. Havia um baby grand-piano, um sofá grande e várias poltronas estofadas; e, a um canto, Billy vislumbrou um grande papagaio em uma gaiola. Animais eram geralmente um bom sinal em lugares assim, disse comigo mesmo; no fim das contas, pareceu-lhe que poderia ser uma casa bem decente onde se instalar. Certamente seria mais confortável que o Bell and Dragon.
Por outro lado, um pub seria mais conveniente que uma pensão. Haveria cereja e dardos à noite e muitas pessoas com quem conversar, e provavelmente seria também um bocado mais barato. Ele passara algumas noites em um pub certa vez e gostara da experiência. Jamais ficara em uma pensão, e, para ser perfeitamente honesto, elas lhe davam um pouquinho de medo. O próprio nome já conjurava imagens de repolho aguado, senhorias avarentas e um cheiro forte de arenque defumado na sala de estar.
Depois de refletir assim por dois ou três minutos, no frio, Billy decidiu que iria retomar a caminhada e dar uma olhada no Bell and Dragon antes de tomar uma decisão. Virou-se para ir embora.
E, então, algo esquisito aconteceu. Quando estava no ato de recuar e voltar as costas à janela, subitamente seu olhar foi atraído e capturado, de um modo muito estranho, pelo pequeno cartaz que havia ali. HOSPEDARIA, dizia. HOSPEDARIA, HOSPEDARIA, HOSPEDARIA. Cada letra era como um enorme olho negro fitando-o através do vidro, que o cativava, compelia, forçava a ficar onde estava e não abandonar aquela casa, e, antes que desse por si, ele se afastou da janela e foi em direção à porta de entrada, subiu os degraus que levavam até ela e procurou a campainha.
Tocou. Bem ao longe. Em um aposento dos fundos, ele a ouviu soar e então no mesmo instante – deve ter sido no mesmo instante porque ele nem tivera tempo de tirar o dedo do botão – a porta se escancarou e uma mulher surgiu.
Normalmente, quando se toca uma campainha, há uma espera de pelo menos meio minuto antes que a porta se abra. Mas essa senhora fora como um boneco minuto antes que a porta se abra. Mas essa senhora fora como um boneco pulando de uma caixa-surpresa. Ele tocou a campainha – e ela pulou para fora! Billy deu um salto.
Ela tinha entre quarenta e cinco e cinquenta anos e, assim que o viu, abriu um cativante sorriso de boas-vindas.
“Por favor, entre”, convidou, afavelmente. Ela se afastou, mantendo a porta escancarada, e Billy viu-se automaticamente saltando para dentro da casa. A compulsão ou, para ser mais exato, o desejo de segui-la para dentro daquela casa era extraordinariamente forte. “Eu vi o cartaz na janela”, disse, contendo-se.
“Sim, eu sei.”
“Gostaria de saber sobre o quarto.”
“Está tudo pronto para você, meu bem”, respondeu ela. Tinha um rosto oval e rosado e olhos azuis muito doces.
“Eu estava a caminho do Bell and Dragon”, disse-lhe Billy. “Mas o cartaz na sua janela acabou chamando minha atenção.”
“Meu bem”, disse ela, “por que você não entra e sai do frio?”
“Quanto a senhora cobra?”
“Cinco shillings e seis pence por noite, café da manhã incluído.
Era incrivelmente barato. Era menos da metade do que ele aceitaria pagar.
“Se for muito caro”, acrescentou, “eu talvez possa abaixar um pouquinho o preço. Você quer ovos no café da manhã? Os ovos estão muito caros ultimamente. Seriam seis pence a menos sem os ovos.”
“Cinco shillings e seis pence está ótimo”, respondeu ele. “Gostaria muito de ficar aqui.”
“Eu tinha certeza disso. Entre, vamos.”
Ela parecia extremamente bondosa. Parecia a mãe daquele melhor amigo de escola, recebendo-o em casa para passar as festas de Natal. Billy tirou o chapéu e cruzou a soleira da porta.
“Pendure-o ali”, disse ela, “e deixe-me ajudá-lo com o casaco.”
Não havia nenhum outro chapéu ou casaco no hall. Não havia nenhum guarda-chuva, nenhuma bengala- nada.
“Temos a casa inteira para nós”, disse, sorrindo para ele por sobre o ombro enquanto o conduzia ao andar de cima. “Sabe, não é sempre que tenho o prazer de receber um visitante em meu humilde ninho.”
A velhinha é meio maluca, disse Billy consigo mesmo. Mas por cinco shillings e seis pence por noite, quem é que dá a mínima? “Eu estava imaginando que a senhora deveria ter uma multidão de interessados”, disse educadamente.
“Ah, mas eu tenho, meu bem, tenho sim, claro. Mas o problema é que tenho a tendência a ser só um bocadinho de nada exigente e difícil de agradar – se é que você me entende.”
“Ah, sim.”
“Mas estou sempre pronta. Tudo nesta casa está sempre preparado, dia e noite, para a remota possibilidade de que apareça um jovem agradável como você. E é um prazer tão grande, meu bem, um prazer tão enorme quando, de vez em quando, abro a porta e vejo que está ali alguém que serve exatamente”. Ela estava no meio da escada e deteve-se com uma das mãos sobre o corrimão, virando a cabeça e sorrindo para ele com seus lábios pálidos. “Como você”, acrescentou, e seus olhos azuis passearam lentamente por todo o corpo de Billy, até os pés, depois novamente até a cabeça.
Ao chegarem ao primeiro andar, ela disse: “Esse andar é meu.”
Subiram mais um lance de escadas. “E este é todo seu”, disse. “Este é o seu quarto. Espero que goste”. Ela o conduziu até um dormitório na parte da frente da casa, pequeno mas charmoso, e acendeu a luz.
“O sol da manhã entra direto pela janela, sr. Perkins. É sr. Perkins, não é?
“Não”, respondeu. “É Weaver.”
“Sr. Weaver. Que bonito. Coloquei uma garrafa com água entre os lençóis para arejá-los, sr. Weaver. É um conforto tão grande ter uma garrafa de água quente em uma cama estranha com lençóis limpos, não acha? E você pode acender o aquecedor a gás a qualquer momento, se sentir frio.”
“Obrigado”, disse Billy. “Muitíssimo obrigado.” Ele reparou que a coberta da cama fora retirada e que os lençóis haviam sido cuidadosamente dobrados, prontos para alguém se deitar.
“Estou tão feliz que tenha aparecido”, disse ela, olhando-o fixamente. “Eu estava começando a ficar preocupada.”
“Está tudo bem”, respondeu Billy, alegremente. “A senhora não precisa se preocupar comigo.” Ele pôs a valise no chão e começou a abri-la. [...]
“Vou deixá-lo agora para que possa desfazer a mala. Mas antes de deitar, você não faria a gentileza de dar um pulinho até a sala de estar no térreo e assinar o livro? Todos têm de fazê-lo porque é a lei, e não queremos desrespeitar nenhuma lei a essa altura do processo, não é mesmo?” Ela fez um breve aceno, saiu rapidamente do quarto e fechou a porta.
Bem, o fato de que a dona da pensão parecia ter alguns parafusos a menos não incomodava Billy nem um pouco. Afinal de contas, ela não só era inofensiva – não havia dúvida nenhuma quanto a isso – mas era óbvio também que possuía uma alma boa e generosa. Ele imaginou que ela provavelmente perdera um filho na guerra, ou coisa parecida, e que nunca se recuperara.
Alguns minutos mais tarde, depois de desfazer a mala e lavar as mãos, ele desceu rapidamente até o térreo e entrou na sala de estar. A dona da pensão não estava lá, mas o fogo ardia na lareira, e em frente a ela o Dachshund ainda dormia. A sala era maravilhosamente confortável e aconchegante. “Sou um sujeito de sorte”, pensou, esfregando as mãos. “Isto aqui não é nada mau.”
Viu o livro de hóspedes aberto sobre o piano e, pegando a caneta, escreveu seu nome e endereço. Havia apenas outros dois registros acima do seu na página e, como sempre se faz com livros de hóspedes, Billy começou a lê-los. Um era Christopher Mulholland, de Cardiff. O outro era Gregory W. Temple, de Bristol.
“Engraçado”, pensou, de repente. “Christopher Mulholland. Já ouvi em algum lugar.”
Mas onde diabos ele ouvira esse nome tão incomum?
Seria um colega de escola? Não. Um dos muitos namorados de sua irmã, talvez, ou um amigo de seu pai? Não, não, não era nada disso. Ele pousou novamente os olhos sobre o livro. [...]
“Gregory Temple?”, disse em voz alta, vasculhando a memória. “Christopher Mulholland?...”
“Rapazes são charmosos”, respondeu uma voz atrás dele. Ele se voltou e viu a dona da pensão, que entrava deslizando pela sala com uma grande bandeja de chá de prata nas mãos. Ela a segurava bem distante do corpo, e bem alto, como se a bandeja fosse o par de rédeas de um cavalo arisco.
“Esses nomes me parecem familiares, de algum modo”, disse ele.
“É mesmo? Que interessante.”
“Tenho quase certeza de que já os ouvi antes, em algum lugar. Não é estranho? Talvez tenha sido no jornal. Eles não eram famosos por algum motivo, eram? Jogadores famosos de críquete ou de futebol, ou algo assim?”
“Famosos?”, disse ela, pousando a bandeja de chá na mesa baixa em frente ao sofá. “Ah, não, não creio que fossem famosos. Mas eram de uma beleza extraordinária, ambos, disso eu posso lhe assegurar. Eram ambos altos e jovens e belos, meu bem, exatamente como você.”
Uma vez mais, Billy lançou o olhar sobre o livro. “Veja aqui”, disse, observando as datas. “O último registro já tem mais de dois anos.”
“Verdade?”
“Sim, é isso mesmo. E o de Christopher Mulholland é de quase um ano antes – há mais de três anos.”
“Meu Deus!”, disse ela, balançando a cabeça e suspirando suavemente. “Eu nunca iria imaginar. Como o tempo voa para todos nós, não é verdade, sr. Wilkins?”
“É Weaver”, corrigiu Billy. “W-e-a-v-e-r.”
“Ora, claro que sim.” Exclamou, sentando-se no sofá. “Que tolice a minha. Por favor, perdoe-me. Entra por um ouvido e sai pelo outro: essa sou eu, sr. Weaver.”
“Sabe de uma coisa?”, disse Billy. “Uma coisa que é de fato absolutamente extraordinária nessa história toda?”
“Na, meu bem, não sei não.”
“Bem, veja – esses dois nomes, Mulholland e Temple, não apenas parece que me lembro de cada um deles separadamente, por assim dizer, mas de alguma forma ambos parecem estar ligados entre si, como se os dois fossem famosos pelo mesmo motivo. Não sei se a senhora está entendendo o que quero dizer – como... como Dempsey e Tunny, por exemplo, ou Churchill e Roosevelt.
“Que divertido”, disse ela. “Mas agora venha para cá, me bem, sente-se ao meu lado aqui no sofá, e vou servir-lhe uma boa xícara de chá e um biscoito de gengibre antes de você ir para a cama.”
“A senhora não deveria ter se incomodado”, disse Billy. “Eu não queria que a senhora tivesse trabalho nenhum.” De pé ao lado do piano, ele observava enquanto ela se atarantava com as xícaras e os pratos. Notou que tinha mãos pálidas e pequeninas, muito ágeis, e que tinha as unhas pintadas de vermelho.
“Tenho quase certeza de que foi no jornal que vi esses nomes”, disse Billy. “Vou me lembrar em um segundo. Tenho certeza.”
Nada é tão angustiante quanto essas coisas que, flutuando nos limites de nossa memória, escapam à nossa lembrança. Ele se recusava a desistir.
“Espere um pouco”, disse. “Espere um pouco só. Mulholland... Christopher Mulholland... não era esse o nome daquele estudante de Eton que estava fazendo uma excursão a pé pelo West Country quando subitamente...”
“Leite?”, perguntou ela. “E açúcar?”
“Sim, por favor. Quando subitamente...”
“Estudante de Eton?”, disse ela. “Ah, não, meu bem, não pode ser isso porque o sr. Mulholland certamente não era nenhum estudante de Eton quando veio até mim. Ele estudava em Cambridge. Agora venha cá, sente-se a meu lado e aqueça-se em frente a esse lindo fogo. Venha. Seu chá já está prontinho.” Ela indicou o lugar a seu lado, tocando o assento delicadamente, e sorriu para Billy, esperando que ele se aproximasse.
Ele atravessou vagarosamente a sala e sentou-se na beira do sofá. Ela pousou a xícara de chá à sua frente.
“Pronto”, disse ela. “Que gostoso e aconchegante, não é? ”
Billy começou a bebericar o chá. Ela fez o mesmo. Durante cerca de meio minuto, nenhum deles disse nada. Mas Billy sabia que ela o observava. Ela tinha o corpo meio virado em sua direção, e ele sentia os olhos dela perscrutando seu rosto, observando-o por sobre a xícara de chá. De vez em quando ele sentia, muito de leve, um aroma peculiar que parecia emanar diretamente dela. Não era nem um pouco desagradável e lembrava-lhe – bem, ele não tinha muita certeza do que é que lhe lembrava. Nozes em conserva? Couro novo? Ou seria o odor de corredores de hospital?
“O sr. Mulholland adorava chá”, disse ela, depois de um longo tempo. “Nunca, em minha vida, vi ninguém tomar tanto chá quanto meu querido, doce sr. Mulholland.”
“Suponho que ele tenha partido recentemente, disse Billy. Ele ainda se remoía, tentando se lembrar dos dois nomes. Ele agora tinha certeza que os havia visto nos jornais – nas manchetes.
“Partido?,” disse ela, arqueando as sobrancelhas. “Mas, meu querido, ele jamais partiu. Ele ainda está aqui. E o sr. Temple está aqui também. Estão no terceiro andar, os dois juntos.”
Billy pousou vagarosamente a xícara sobre a mesa e fixou o olhar sobre a dona da pensão. Ela sorriu para ele, estendendo uma de suas mãos pálidas e tocando-lhe carinhosamente o joelho. “Qual a sua idade, meu bem?”, perguntou.
“Dezessete anos.”
“Dezessete!”, exclamou ela. “Ah, é a idade perfeita! O sr. Mulholland também estava com dezessete anos. Mas creio que fosse um pouquinho mais baixo que você, na verdade tenho certeza de que era sim, e os dentes dele não eram nem de perto tão brancos quanto os seus. Você tem dentes lindíssimos, sr. Weaver, sabia disso?”
“Eles parecem melhores do que são”, respondeu Billy. “Há uma porção de obturações nos dentes do fundo.”
“O sr. Temple, claro, era um pouco mais velho”, continuou ela, ignorando o comentário. “Ele tinha na verdade vinte e oito anos. E, no entanto, eu jamais teria adivinhado se ele não me tivesse dito, nunca em minha vida inteira. Não havia uma única marca em seu corpo.”
“Uma o quê?”, perguntou Billy.
“A pele dele era igualzinha a de um bebê.”
Houve uma pausa. Billy apanhou a xícara e tomou outro gole de chá, pousando-a depois delicadamente no pires. Ele estava esperando que ela dissesse algo mais, mas parecia ter se perdido em outro de seus silêncios. Sentado ali, Billy fixou o olhar no outro lado da sala, à sua frente, mordendo os lábios.
“Aquele papagaio”, disse por fim. “Sabe de uma coisa? Enganou-me completamente quando o vi pela primeira vez através da janela. Eu jurava que ele estava vivo.”
“infelizmente, não mais.”
“É extremamente inteligente o modo como foi feito”, disse ele. “Nem parece que está morto. Quem fez?”
“Eu mesma.”
“A senhora?”
“Claro”, respondeu. “E você já conheceu também o meu Brasil?” Ela apontou com a cabeça o dachshund, enrolado tão confortavelmente em frente à lareira. Billy examinou-o com os olhos. E, subitamente, se deu conta de que o animal estivera o tempo todo, tão silencioso e imóvel quanto o papagaio. Estendeu a mão e tocou-lhe delicadamente o dorso. As costas estavam duras e frias, e, quando seus dedos afastaram os pelos para um lado, ele pôde ver a pele embaixo, enegrecida, seca e perfeitamente preservada.
“Deus do céu!”, exclamou. “Isso é absolutamente fascinante.” Desviou o olhar do cachorro e encarou com profunda admiração a pequena senhora a seu lado no sofá. “Deve ser incrivelmente difícil fazer uma coisa assim.”
“Nem um pouquinho”, respondeu ela. “Eu empalho eu mesma todos os meus animaizinhos de estimação quando eles morrem. Você aceitaria mais uma xicara de chá?”
“Não, obrigado”, disse Billy. O chá tinha um ligeiro sabor de amêndoas amargas de que não gostara muito.
“Você assinou o livro, não assinou?”
“Ah, sim.”
“Isso é ótimo. Porque daqui a algum tempo, se eu por acaso me esquecer de como você se chamava, poderei sempre vir até aqui e procurar no livro. Eu ainda o faço quase todos os dias com o sr. Mulholland e o sr... o sr...”
“Temple”, completou Billy. “George Temple. Desculpe-me perguntar, mas não houve nenhum outro hóspede aqui além deles nesses últimos dois ou três anos?”
Segurando a xicara de chá bem no alto e inclinando a cabeça ligeiramente para a esquerda, olhou para ele de soslaio e sorriu-lhe delicadamente mais uma vez.
Não, meu bem, disse. “Só você.”
Roald Dahl. A dona da pensão. In: ________________ . Beijo. São Paulo: Barracuda, 2007.